sonhos são outra realidade melhor que a nossa
Quando, na madrugada, me deito e fecho meus olhos, sinto que aqueles
poucos minutos quando eu encaro a escuridão de minhas pálpebras, esperando
minha consciência mudar de plano, sejam os momentos mais pacíficos do meu dia.
Não há ruído algum, meu quarto é tomado pelo absoluto silêncio. Não há luz nenhuma que queime meus olhos. Minhas linhas de pensamentos vão se abstraindo, quaisquer preocupações ou responsabilidades se esvaem nos fios do meu cérebro, que se desligam um por um, permitindo só com que os mais essenciais continuem pulsando eletricidade. Aí permaneço, no aguardo da misteriosa hora quando paro de existir no mundo físico e me tranco dentro da minha própria cabeça, atuando em um filme gerado aleatoriamente pelas mais distintas partes da minha inteligência. É como um limbo, onde quanto mais você afunda, mais nada você sente, até ser completamente coberto pelo oceano negro. Mas me engano: Os momentos mais pacíficos do meu dia acontecem durante meus sonhos.
Se eu tenho algum talento, sonhar é um deles. Noventa e cinco porcento das minhas noites de sono são abençoadas por alguma desvairada história. E são nesses mundos completamente imaginados que me sinto mais feliz. Aqui, quero compartilhar um pouco da minha experiência com o fenômeno que é sonhar.
Algo que imagino ser impossível é perceber em que momento você transiciona do mundo físico para o mundo psíquico da sua cabeça. Também imagino que isso seja algo que todos nos já pensamos e já tentamos fazer: Identificar esse exato momento. Não acho que alguém tenha tido resultados satisfatórios com essa experiência. Entretanto, outra consequência dessa inabilidade de percepção do momento específico é não saber exatamente como seu sonho começa. Claro, certas vezes temos vários sonhos diferentes no mesmo sono, tornando possível saber quando alguns sonhos terminam para outros começarem. Mas quando se trata de um só sonho, que continua até o momento que você abre os olhos, é possível saber exatamente onde e como ele começou? Assim como esse início, perdemos grandes pedaços dessas histórias imaginárias quando acordamos. Completamente esquecidos, como se você nunca os tivesse visto. As vezes, sabemos que há partes faltando, mas apesar dos nossos mais intensos esforços, nunca nos lembramos. Minhas histórias também se perdem desse jeito. Partes de um DVD que foram arranhadas, fazendo com que, ao tentar rodar o filme, certas cenas pulem subitamente para outras, sem conclusão aparente. Mesmo assim, continuo com a maior parte do filme intacta quando acordo. Se foi uma história muito surpreendente, anoto-a em algum lugar. Se não, armazeno ela em minhas faculdades mentais, junto a vários outros contos, reais ou imaginários.
Essas histórias imaginárias são, na maioria das vezes, completamente abstratas e dadaístas. As vezes, são fidedignas à vida real. Podem ser tanto boas quanto ruins, sonhos ou pesadelos. No meu caso, o bom dadaísmo vence dentre as outras ocasiões. Não há como definir exatamente como é a temática dos meus sonhos, mas sempre há vários elementos baseados nas minhas memórias (Obviamente, já que o conteúdo dos sonhos é sempre o quê está armazenado no seu cérebro), e o que eu quero dizer com isso é que sempre há algo quase palpável para mim: As vezes, estou em lugares que conheço, outras, com pessoas que conheço. Existe sempre uma familiaridade e um conforto nas histórias imaginárias. Nessas histórias, sou sempre um ator: Não tenho minha consciência normal, é como se eu fosse um personagem que representa o Cauã do mundo físico, mas que não é ele. Não sei dizer se tenho controle das minhas ações ou não, afinal, não sou eu que estou conscientemente tomando decisões ali, mas aquilo, aquele personagem, toma decisões o tempo todo. Eu estou ali dentro, em algum nível? Ou estou apenas seguindo o roteiro definido pelo meu cérebro? Se minha cabeça consegue criar histórias, com visuais e roteiros predefinidos, isso quer dizer que tem algo aqui dentro que também pensa, mas que não sou eu. Existe eu nesse algo? Ou é algo completamente diferente, algo completamente biológico?
Dentro dos sonhos, sempre me sinto muito leve, já que nada tem peso e eu percebo isso. Meu corpo não tem peso nenhum. Minha cabeça não tem cansaço algum. É como se eu fosse perfeito. Sigo minhas aventuras como se estivesse flutuando. A noite e a solidão se tornam quentes e amigáveis. É um sentimento inexplicável, que me traz uma felicidade genuína. Nos meus sonhos, sempre estou vivendo algo diferente do normal, algo livre de perigos ou consequências, experiências absurdas que sempre me fazem sentir algo diferente, que é bom, mas não se encontra no mundo real. Porque o mundo real é frio e pesado, meu corpo é pesado e minha cabeça é cansada. Não há várias possibilidade de aventuras. Você deve pensar e tomar decisões por si próprio, pois não existe um roteiro para você seguir. Suas ações tem consequências. O mundo é ordinário, as cidades e as paisagens não se comparam à beleza que minha cabeça cria. Tudo é tão mais fácil dentro da minha cabeça.
É como se, por um breve momento, eu vivesse outra vida. Completamente diferente da minha, e pudesse sentir o quê é ser outra pessoa. Uma pessoa perfeita.
Enfim, abro os olhos pela manhã, no mesmo quarto que sempre acordo. Continuo minha rotina como sempre faço, e saio para encarar o mundo frio, pesado e entediante. Mas é desse mundo que tiro as memórias que são usadas para construir mais sonhos. Toda aquela beleza que vi em minha mente, é baseada na beleza aqui de fora. Na rotina e no tédio dos meus dias, eu observo e crio memórias. Quando me sinto bem nos sonhos, essa sensação vem do que acontece aqui. Na realidade. Aqui, é onde realmente estou vivo, onde eu sou um indivíduo, onde eu tenho consciência, e sou do jeito que eu quero. E é aqui também onde as pessoas tem algo que os fantasmas dos meus sonhos não tem: Calor.
